Atirar-se às ondas
Naquele momento, Jesus preparava os apóstolos para o que estava por vir.
Mostrava-lhes o que deveria suceder a Ele, cumprindo as palavras dos grandes profetas do Velho Testamento.
Filipe, emocionado com aquelas revelações, interrogou:
Mestre, como pode ser isso, se sois o modelo supremo da bondade? O sofrimento será, então, o prêmio às Vossas obras de amor e sacrifício?
Eis uma dúvida genuína: Por que Jesus precisou mergulhar no sofrimento se não tinha nada para resgatar?
Vim ao mundo para o bom trabalho e não posso ter outra vontade, senão a que corresponda aos sábios desígnios dAquele que me enviou.
Minha ação se dirige aos que estão escravizados, no cativeiro do sofrimento, da expiação. Instituindo, na Terra, a luta perene contra o mal, tenho de dar o legítimo testemunho dos meus esforços.
Necessitamos ponderar que as palavras dos ensinos somente são justas, quando seladas com a plena demonstração dos valores íntimos.
Acreditais que um náufrago pudesse sentir o conforto de um companheiro que apenas se limitasse a dirigir-lhe a voz amiga, lá da praia, em segurança?
Para salvá-lo, será indispensável ensinar-lhe o melhor caminho, atirando-se, igualmente, às ondas, partilhando dos mesmos perigos e sofrimentos.
O fardo que sobrecarrega os ombros de um amigo será sempre mais agravado em seu peso, se nos pusermos a examiná-lo, muitas vezes guiados por observações inoportunas.
Ele, entretanto, se tornará suave e leve para aquele a quem amamos se o tomarmos com os nossos esforços sinceros, ensinando-lhe como se pode atenuar o peso, nas curvas do caminho.
* * *
Reflitamos sobre as palavras de Jesus.
Ele se utiliza da imagem de um náufrago ouvindo a voz amiga de um companheiro, que está na praia.
Em paralelo, compara com a atitude desse mesmo companheiro quando se atira às ondas, partilhando dos mesmos perigos e sofrimentos.
Da praia, falamos com o coração, mas sem nos colocarmos no lugar do outro.
Quando nos atiramos às ondas, conseguimos nos entregar às dores alheias, damos um passo a mais na direção do próximo. Nossa visão se amplia e a ajuda é mais eficaz.
Atirar-se às ondas não pode ser entendido como cair, como corromper-se ou envolver-se nos mesmos problemas do outro.
A linguagem figurada do Mestre nos acena a ideia de partilhar a dor, de estender a mão, de doar nosso tempo, de nos encharcarmos da vida do outro para podermos ajudar.
Avisos, conselhos ditos em voz alta, à distância, mostram boa intenção. Contudo, por vezes, sequer são ouvidos porque quem está envolvido no problema precisa de algo mais.
Quem somos nós nessa imagem?
Os que olhamos da praia e nada falamos? Os que observamos da areia e gritamos, preocupados? Os que nos decidimos a mergulhar os pés no mar e conseguimos ver o náufrago, em toda sua aflição?
Somos aqueles cujos joelhos já estão no nível d'água? Ou, quem sabe, somos os que nos atiramos às ondas, no intuito de auxiliar verdadeiramente?
Reflitamos a respeito.
Redação do Momento Espírita, com base no
cap. 21, do livro Boa Nova, pelo Espírito
Humberto de Campos, psicografia de
Francisco Cândido Xavier, ed. FEB.
Em 18.5.2026
