Crise com Flávio acentua tensão com Michelle e filhos de Bolsonaro
A crise na campanha do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em razão do vazamento de um áudio no qual pede dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acentuou a tensão entre os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF).
O principal motivo é a suspeita, entre aliados dos filhos de Bolsonaro, de que o vazamento tenha partido de dentro do próprio bolsonarismo, mais especificamente de setores que defendem Michelle como candidata à Presidência no lugar de Flávio.
Aliados da ex-primeira-dama rejeitam com veemência essa hipótese. Argumentam que as investigações do Caso Master são conduzidas pela PF (Polícia Federal), subordinada ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e lembram que o próprio PT sinalizou, em congresso realizado há duas semanas, que a vinculação do Caso Master ao bolsonarismo era prioridade política.
Também relatam que Michelle sequer definiu se disputará uma vaga ao Senado, diante de uma rotina hoje praticamente dedicada aos cuidados de Jair Bolsonaro. A decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes limita o acesso ao ex-presidente, e parte significativa das demandas domésticas acaba recaindo sobre a ex-primeira-dama.
Segundo aliados, se Michelle tivesse interesse em disputar algum cargo, já teria manifestado isso publicamente. Dizem ainda que ela sempre afirmou querer ser apenas “a primeira-dama”, respeita as decisões políticas do marido e, neste momento, atua somente como presidente do PL Mulher.
Ainda assim, pessoas próximas percebem um recrudescimento das críticas internas contra Michelle desde a posse de Nunes Marques no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ocasião em que ela cumprimentou Alexandre de Moraes, além do impacto provocado pelo vazamento do áudio.
Bolsonaro sempre demonstrou, segundo interlocutores, resistência à candidatura de Michelle, por não querer que ela enfrente os ataques políticos aos quais ele próprio foi submetido. Também costumava alertá-la de que “a política é cheia de lobos”, segundo um aliado da ex-primeira-dama.
O entorno rejeita qualquer hipótese de candidatura dela e mantém a aposta de que Flávio seguirá como candidato mesmo após a repercussão dos áudios. Mas também faz um alerta: da mesma forma que o entorno de Jair Bolsonaro teria prejudicado seu governo, o grupo que cerca Flávio pode comprometer sua candidatura.
As acusações de que Michelle poderia estar por trás do vazamento tendem a retardar sua entrada mais efetiva na campanha. Isso porque ainda existe um passivo político mal resolvido entre ela e os filhos de Bolsonaro, especialmente após divergências no Ceará e em Santa Catarina. Michelle defendia apoio, respectivamente, a Priscila Costa e Carol de Toni, mas o PL acabou optando por outras candidaturas.
Até hoje, o assunto não teria sido plenamente superado. A posse de Nunes Marques e o vazamento do áudio ampliaram ainda mais a distância entre Michelle e os filhos do ex-presidente.
Ela, porém, afirma que participará da campanha de Flávio quando considerar o momento adequado. Entre aliados, a avaliação é de que o principal problema está menos em Flávio e mais no entorno que o cerca.
