A dificuldade de conviver com quem pensa diferente chegou ao ambiente de trabalho
Discordar faz parte de qualquer equipe. O problema começa quando uma opinião diferente deixa de ser vista como parte da convivência e passa a ser interpretada como ameaça, incompetência ou falta de alinhamento. No trabalho, isso pode comprometer a comunicação, dificultar decisões e desgastar relações.
Para Thais Bicalho e Isabel Oliveira, do Instituto de Treinamentos Ágeis (ITA), saber lidar com diferentes pontos de vista é uma competência cada vez mais necessária. Não significa concordar com tudo, mas ouvir, argumentar e construir decisões sem transformar a divergência em conflito pessoal.
A questão ganha espaço em um ambiente profissional marcado por diferentes gerações, experiências e formas de trabalhar. Ao mesmo tempo, novas tecnologias alteram processos e aceleram decisões. Nesse cenário, saber conversar, ouvir e considerar outras perspectivas pode ter tanto peso quanto o conhecimento técnico. “Uma equipe não precisa pensar igual para funcionar bem. Ela precisa conseguir conversar quando pensa diferente”, explica Isabel Oliveira.
Um dos sinais de dificuldade nessa convivência aparece quando as pessoas deixam de ouvir para compreender e passam a ouvir apenas para responder. Interrupções, julgamentos antecipados e a rejeição de uma ideia pela pessoa que a apresenta acabam limitando a troca. Todos falam, mas pouco se aproveita da conversa.
Quando questionar vira problema
A dificuldade também pode começar pela liderança. Um gestor que interpreta qualquer questionamento como resistência pode criar um ambiente em que os profissionais preferem não se manifestar. Com o tempo, problemas deixam de chegar à mesa, ideias deixam de ser apresentadas e decisões passam a ser tomadas com menos informação.
Para Thais Bicalho, o primeiro passo é entender que discordância não é sinônimo de conflito. “Quando uma pessoa apresenta outra visão, ela pode estar trazendo uma informação que ainda não foi considerada. O papel da equipe não é eliminar a diferença, mas saber trabalhar com ela”, afirma.
Inteligência relacional
É nesse ponto que entra a inteligência relacional, que envolve perceber o próprio comportamento, entender seu impacto sobre os outros e escolher a melhor forma de conduzir cada conversa. Isso inclui saber colocar limites, dar e receber feedback e enfrentar assuntos difíceis sem transformar o diálogo em disputa.
Quando a convivência se desgasta, os efeitos aparecem também na colaboração. Profissionais podem evitar determinadas conversas, deixar de compartilhar informações ou segurar ideias por receio da reação dos colegas. O trabalho continua, mas a troca perde espaço.
Por isso, Isabel Oliveira e Thais Bicalho defendem que empresas interessadas em fortalecer a colaboração precisam olhar também para a forma como as relações são construídas no dia a dia. Criar espaço para perguntas, permitir que ideias sejam contestadas e preparar líderes para conduzir conversas sem respostas prontas são alguns caminhos.
Uma equipe não precisa eliminar as diferenças para funcionar. Precisa criar condições para que elas possam ser discutidas sem romper a relação entre as pessoas. “As equipes não são formadas pela ausência de diferenças, mas pela capacidade de transformar essas diferenças em diálogo, aprendizado e decisão”, destaca Isabel Oliveira.
A especialista acrescenta que conviver com as diferenças também amplia a capacidade de inovar. “Quando experiências e formas distintas de pensar encontram espaço para o diálogo, novas perspectivas e conhecimentos surgem. Incluir, nesse sentido, também é criar espaço para aprender, trocar e encontrar novos caminhos”.
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