Polilaminina: estudo será publicado com revisão, diz cientista

Portal SBN
Quarta, 20 de outubro de 2021, 16:15:21

Polilaminina: estudo será publicado com revisão, diz cientista

Brasil - Saude

A pesquisadora Tatiana Sampaio à frente da pesquisa sobre a polilaminina, disse que o estudo vai ser publicado em uma revista com a revisão de pares. O g1 havia publicado com exclusividade que o texto havia sido recusado por duas revistas diferentes antes e que Tatiana admitiu erros no texto. Agora, ela alega que teve o aval de uma revista, mas não quis dar detalhes.

A declaração ocorre em meio ao crescente interesse pelo tratamento experimental para lesões na medula espinhal, que ainda passa por testes para comprovar sua segurança e eficácia em humanos. A Anvisa liberou o uso compassivo, mas os especialistas afirmam que é precoce a aplicação.

A polilaminina é uma proteína derivada da placenta que busca estimular a regeneração de nervos lesionados. O tratamento ganhou notoriedade no Brasil após resultados promissores em estudos com animais e a divulgação de um estudo preliminar, em 2024, promovido pela farmacêutica Cristália, que adquiriu a patente da tecnologia e vem fazendo um investimento milionário. A Cristália investiu mais de R$110 milhões no desenvolvimento da polilaminina.

Para que uma pesquisa seja reconhecida, ela precisa passar pela revisão por pares -- em que outros especialistas leem o texto e avaliam se o que está sendo apresentado foi feito de acordo com os parâmetros da ciência, se não há conflitos e vieses.

Hoje, a polilaminina não tem uma pesquisa publicada. O que existe é uma versão prévia e que Tatiana já admitiu em entrevista ao g1 em março desse ano ter erros.

Ao g1, Sampaio disse que a primeira versão corrigida do texto chegou a ser apresentada a duas revistas: a Nature Communications e o Journal of Neurosurgery. O trabalho, no entanto, foi rejeitado pelos dois periódicos.

Entre os pontos citados à época eram: divergências sobre a taxa de recuperação de pacientes usada como referência no trabalho e a ausência de registro prévio do ensaio clínico em um banco internacional de pesquisas. (Leia mais abaixo)
 
Entre os pontos de falha, que Tatiana chegou a admitir em entrevista, envolvia um paciente que morreu poucos dias após o procedimento, mas que nos dados do estudo aparecia com melhoras registradas após cerca de 400 dias de tratamento.
Agora, ela diz que a versão foi aceita por uma publicação com revisão por pares, mas não informou qual é e nem mesmo quando deve ser publicada.

Polilaminina deve começar pesquisa oficial
 
Apesar dos resultados apresentados no estudo, especialistas dizem que ainda há muitas dúvidas sobre a polilaminina. Todas elas devem ser solucionadas com a pesquisa autorizada pela Anvisa, mas que ainda deve ser iniciada pelo Cristália.

A pesquisa que existe é prévia e não vale para dizer se uma substância funciona ou é segura. Inclusive, no próprio estudo Tatiana e sua equipe não descartam o risco da substância.

No pré-print, os pesquisadores afirmam que mortes por pneumonia e sepse registrados entre os participantes poderiam, em princípio, estar ligados a um possível efeito imunossupressor (capacidade de reduzir a atividade do sistema imunológico) provocado pela polilaminina.

Para garantir que a polilaminina é segura e eficaz ainda são necessários:

Iniciar ensaios clínicos regulatórios em humanos – começando pela fase 1, voltada à segurança em pequeno grupo. Isso foi aprovado em janeiro pela Anvisa e ainda está na comissão de ética. Ou seja, ainda não começou.

Depois, caso seja provada a segurança, vai ser preciso ampliar os testes nas fases 2 e 3 – em que é avaliada a eficácia, doses adequadas e efeitos adversos em populações maiores.

Caso as duas fases acima sejam um sucesso, então é solicitado o registro sanitário. Após a aprovação, o medicamento pode ser comercializado.

A Anvisa autorizou um ensaio clínico de fase 1 para avaliar a segurança da polilaminina em cinco pacientes com lesões agudas completas da medula espinhal. O estudo inclui pessoas entre 18 e 72 anos tratadas em até 72 horas após o trauma.
 

Se não tem pesquisa, por que pessoas estão usando?
 
Segundo a Cristália, que investiu mais de R$ 110 milhões no desenvolvimento do medicamento, a empresa tem doado o tratamento para pacientes agudos após autorização da agência reguladora.

No Brasil, existe uma lei que permite o uso compassivo de uma substância. Por essa via, pacientes que têm uma doença onde não há outra chance de tratamento podem pedir à Anvisa o uso. Essas aplicações não fazem parte de um estudo e esses pacientes não são acompanhados pela equipe de Sampaio.

Até o momento, de acordo com o Cristália, 84 pacientes receberam autorização para uso compassivo da polilaminina, sendo 44 por decisão judicial e 40 por vias administrativas.

Apesar do entusiasmo, pesquisadores e entidades científicas afirmam que ainda é cedo para concluir que o tratamento funciona.

Marco Baptista, diretor científico da Fundação Christopher & Dana Reeve, classificou a pesquisa como inovadora e promissora, mas destacou que ela representa apenas uma entre diversas abordagens experimentais ainda em fase inicial de desenvolvimento. Segundo ele, é necessário confirmar tanto a segurança quanto a eficácia do tratamento antes de qualquer conclusão.

A Academia Brasileira de Neurologia também defende cautela. O presidente da entidade, Delson José da Silva, afirmou que a comunidade científica deseja o sucesso da pesquisa, mas que ela precisa cumprir os critérios exigidos para validação científica.

Por que o estudo ainda não tinha sido aceito por revistas científicas
 
Em março deste ano, o g1 destacou que revistas científicas que avaliaram o estudo sobre a polilaminina apontaram dois problemas principais para recusar a publicação do texto: divergências sobre a taxa de recuperação de pacientes usada como referência no trabalho e a ausência de registro prévio do ensaio clínico em um banco internacional de pesquisas.

Quando um estudo é submetido a uma revista especializada, ele passa pela chamada revisão por pares. Ou seja, é avaliado por pesquisadores e, quando aceito nesses periódicos, isso indica que o trabalho passou por uma avaliação técnica considerada um dos principais filtros de qualidade da ciência na pesquisa.

Tatiana informou ao g1, à época, que ela havia tido três recusas de sua versão já revisadas: Nature Communications, uma outra revista do grupo Nature e o Journal of Neurosurgery.

A pesquisadora disse que iria corrigir erros no pré-print e fazer uma nova revisão.

Segundo Tatiana, os pontos que seriam corrigidos são:

Erro em gráfico de paciente
 
Na versão atual do pré-print, o participante 1 aparece com cerca de 400 dias de acompanhamento, apesar de o texto indicar que ele morreu cinco dias após o procedimento. Tatiana confirmou que os dados pertencem, na verdade, ao participante 2 e que houve um erro de digitação na figura.
 

Mudança na forma como exame é mostrado
 
Outro ponto que vinha sendo questionado por especialistas envolve o exame de eletromiografia usado em um dos pacientes para indicar possível regeneração após o tratamento. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que, em alguns dos casos descritos como sucesso, a eletromiografia não mostrou alterações claras. Segundo ela, a imagem estava “mal programada” e exibia dados brutos.
 

Explicação sobre choque medular
 
Outro ponto que vinha sendo debatido por especialistas era a possibilidade de que alguns pacientes pudessem estar em choque medular no momento da avaliação inicial.

➡️ O QUE É O CHOQUE MEDULAR? É uma fase temporária que pode ocorrer logo após uma lesão na medula espinhal, quando a pessoa perde os reflexos e a atividade nervosa abaixo do local do trauma.

Esse estado temporário pode interferir em exames usados para classificar a gravidade da lesão, em que elas poderiam ser menos graves do que o visto pelos pesquisadores. Como essa condição não estava detalhada no pré-print original, pesquisadores apontavam que isso poderia ser um ponto cego na interpretação dos resultados.

Na versão revisada do pré-print, Tatiana afirma que nenhum paciente estava em choque medular e que todos passaram por exames prévios para avaliar essa possibilidade. Segundo ela, não foi utilizado o procedimento considerado padrão-ouro para essa confirmação — que exige alguns dias de observação — porque a polilaminina precisa ser aplicada em até 72 horas após a lesão.

➡️ Apesar disso, o pré-print não cita quantos participantes foram avaliados e não incluídos na pesquisa. Esse é um ponto que vem sendo levantado por especialistas em pesquisa clínica.

Em estudos clínicos, é importante explicar como os participantes foram escolhidos. Isso ajuda a evitar vieses, que é quando a forma de selecionar os pacientes pode influenciar os resultados.
 

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