‘A IA não é como um aparelho que pode ser desligado', explica o físico brasileiro cotado para Nobel

Portal SBN
Quarta, 20 de outubro de 2021, 16:15:21

‘A IA não é como um aparelho que pode ser desligado', explica o físico brasileiro cotado para Nobel

Tecnologia - Ia

Criador de uma teoria essencial em áreas tão variadas quanto economia, inteligência artificial (IA), computação quântica, climatologia, astrofísica, genômica e medicina, Constantino Tsallis é considerado um dos físicos mais influentes do mundo. Tsallis reconhece os perigos de a IA sair do controle e explica como a física pode ajudar a distinguir manipulações em apostas e eleição.

Aos 82 anos, o pesquisador emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) se mantém ativo e consagrado. Seu prestígio fica evidente em prêmios internacionais recentes, como o SigmaPhi 2026 (um dos mais importantes da física). E notadamente por sua escolha para copresidir o Simpósio Nobel de Física de 2027, na Suécia, que será focado em sua obra.

Publicado em 1988, seu estudo sobre mecânica estatística não extensiva é a pesquisa de autoria brasileira mais citada da História, em todas as áreas do conhecimento. O trabalho é citado por mais de 12 mil publicações, de 18 mil cientistas, de 121 países. O Nobel de Física será anunciado amanhã, e ele está cotado para receber a premiação neste ou no próximo ano.

O que diz a sua teoria?

Ela está relacionada aos conceitos de energia e entropia. Energia todo mundo tem noção do que é. Mas entropia é mais sutil. E a etimologia do nome, do grego, dá uma pista. Tem a ver com diversidade de modos, a uma pluralidade de maneiras da forma como a energia pode acontecer. E tem a ver com a desordem de um sistema. A entropia é uma medida do nosso desconhecimento sobre um sistema. Energia e entropia são ligadas, mas têm diferenças conceituais fundamentais.

Quais?

As energias têm a ver com possibilidades. As entropias estão ligadas às probabilidades dessas possibilidades. Veja o caso das bets, das loterias. Há duas possibilidades: ganhar e perder. Mas as probabilidades são monstruosamente diferentes. A probabilidade de não ganhar é gigantesca, algo como 99,999%. E a de ganhar é 0,001%. As possibilidades não têm medida. Mas as probabilidades, sim. Elas dão as medidas das possibilidades. A publicidade das bets, das apostas está baseada em confundir os dois conceitos. Foca só na possibilidade. Sim, é possível ganhar. Mas é pouquíssimo provável. As pessoas se iludem.

Sua teoria é uma forma de medir sistemas complexos, como os seres vivos, a economia, o clima?

Sim. É uma forma de medir sistemas complexos. Um ser vivo é um sistema complexo, a economia de um país, outro. Um terremoto, mais um. São muitos. Basicamente, a minha teoria estabelece um índice e ele pode ser medido.

Como é usada?

Ela mede contextos. O filósofo espanhol José Ortega y Gasset escreveu que “eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim”. Isso quer dizer que se a circunstância muda, eu também mudo. Nos sistemas simples, a circunstância é secundária. Para os complexos, é fundamental. Por exemplo, um brasileiro se comporta de uma forma aqui e de outra, na Dinamarca, se não falar dinamarquês. A circunstância muda o comportamento. Essa sutileza, de como a circunstância influencia o comportamento, é o que minha teoria mede. Não vou dizer que mede exatamente, em ciência não falamos em perfeição.

Estamos em período eleitoral. Há aplicação nelas?

Diria que é possível melhorar a predição. Mas em alguns casos se pode melhorar muito a predição.

Em que casos?

Por exemplo, em medicina. Quatro engenheiros da Índia publicaram um estudo usando essa medida para melhorar a análise de mamografias na detecção do câncer. Aumentaram a detecção dos casos positivos de 80% para 97%, com isso evitaram que mulheres com câncer deixassem de ser tratadas a tempo. Também reduziram os casos de falsos positivos. Estes passaram de 8% para 0,4%, diminuindo o sofrimento desnecessário. Essa é uma das minhas aplicações favoritas. Não é só um conceito abstrato. Salva vidas.

Nem sempre fica evidente a importância da ciência básica...

Sim. Ela está na essência. Foram conceitos da física que tornaram possível desenvolver, por exemplo, tomografia, ultrassonografia, ressonância magnética. Minha primeira publicação científica foi sobre ultrassom. Até coisas mais elementares, como medir a temperatura, derivam da física.

Seu trabalho é muito usado em áreas de vanguarda como a computação quântica, certo?
Sim, computadores quânticos usam muito a entropia não aditiva, que desenvolvi. Há centenas de estudos no mundo publicados sobre isso.

Como sua teoria é empregada no desenvolvimento de inteligência artificial (IA)?

Ela tem sido usada para melhorar os processos de IA. Pode diminuir, por exemplo, as alucinações dos modelos, que ainda são muito frequentes. Pode fazer com que as respostas tenham mais credibilidade. Hoje a IA pode inventar até referências bibliográficas completas. Minha formulação tem tido bastante uso.

E como vem sendo usada?

Na quinta-feira, por exemplo, recebi um matemático que usou esse conceito em IA para melhorar um teorema importante da mecânica estatística, o de Enciso-Tempesta. (A grosso modo, esse teorema prova como a teoria de Tsallis consegue medir desordens em sistemas com memória, com aplicação vasta. Por exemplo, em tecnologias para examinar o cérebro ou planejar redes elétricas ou de trânsito urbano). A minha formulação tem aplicações importantes em IA, mas não me fazem vibrar. Para mim, a IA não é a mais interessante das aplicações.

E o que lhe empolga?

Tem uma aplicação com a qual vibrei muito. Foi uma experiência extremamente difícil de realizar com tunelamento quântico. Ela foi publicada com destaque pela Nature, em 2023, e liderada por Roland Wester, da Universidade de Innsbruck (Áustria). No mundo quântico de partículas subatômicas, as coisas se comportam de forma diferente. Átomos podem desaparecer através de uma parede, como se fossem fantasmas. E isso altera o equilíbrio. (Em linhas muito gerais, o estudo ajuda a entender como moléculas complexas se formam nas profundezas frias do Universo, onde o tunelamento quântico é motor de reações químicas.)
 
O senhor considera possível que a IA comece a usar uma matemática que o cérebro humano não alcance, como alguns cientistas alertam?

Sim, mas isso para mim nem seria o mais grave. Ela pode usar uma matemática inconsistente, falsa. A IA se baseia em processos lógicos muito complexos. Se no meio de um deles acontecer um erro de lógica, este pode não ser percebido. Nem o desenvolvedor do programa pode perceber. Esse risco existe.

Pode haver perda de controle da IA?

Esse risco não pode ser totalmente excluído. A IA não é como um aparelho que possa ser desligado. Ela é constituída por redes de bilhões de computadores que se comunicam entre si. O que será preciso desligar para conter uma IA? É praticamente impossível. Realmente estamos brincando com o perigo. O mau uso é um risco. A Humanidade inventou algo do qual não pode simplesmente se livrar. Toda a sociedade moderna está ligada a isso. E mesmo que se queira desativar uma rede, partes podem continuar “vivas”.

É possível criar mecanismos de controle? Como impedir se alguém quiser usar maliciosamente ou se uma rede sair de controle?

Existem maneiras de controlar redes, mas não é nada fácil. É a mesma coisa que dizer que é possível controlar o câncer. Muitas vezes dá certo, mas nem sempre. Porém, destaco que a IA traz riscos, mas faz coisas maravilhosas. Precisamos aprender a conviver com a IA. Darwin talvez não aprovasse, mas ouso dizer que criamos uma nova espécie “viva”.

O senhor acredita que a IA poderá ter a genialidade humana ao ponto de desenvolver teorias, ideias originais, e não só executar tarefas baseadas nelas?

Não sei. Mas o ser humano, além da inteligência, tem emoções, sensibilidade. E isso é fundamental. Aparentemente, as IAs não têm emoções. Para uma IA, servir um café ou esfaquear alguém são apenas diferentes possibilidades. A IA ri? O riso é próximo do sentimento. Como não tem sentimento, ela não ri. Se um dia tivermos uma IA assim, poderemos até nos apaixonar por ela. Mas não estou dizendo que isso é factível.

O uso maciço de IA tem aumentado a quantidade de informação de forma assombrosa, facilitado tarefas e agilizado processos, mas também não poderia deixar as pessoas mais preguiçosas ou até reduzir a capacidade cognitiva de alguns?

Disso não tenho a menor dúvida. Há uma enorme preguiça mental. Vejo isso nos meus estudantes. Há muitos jovens que gostam de perguntas cuja resposta seja limitada a sim ou não. Não querem respostas complexas. Mas são essas respostas, com complexidade e dificuldades, que nos fazem aprender. Muitas pessoas passaram a ter preguiça de investigar, perderam a curiosidade natural que nos faz tão humanos. A IA faz tudo para elas. E nunca se aventuram a aprender mais, perdem a habilidade de aprender por conta própria, de ter novas ideias. É preciso saber usar a IA.

É possível pensar numa IA criativa?

Quando trabalhei no Instituto de Santa Fé (Califórnia) com Murray Gell-Mann (Prêmio Nobel de Física de 1969, inventor do conceito de quark), certa vez lhe perguntei por que se interessava tanto por criatividade. Ele me falou sobre as leis da criatividade, e a primeira delas é que se você tem uma boa razão para acreditar em algo, precisa acreditar em todas as consequências disso, por mais estranhas que sejam. Por exemplo, se acha que as moléculas de ar numa sala têm movimento caótico, tem que cogitar que elas estejam batendo na sua bochecha. Pensar na bochecha é uma ideia nada usual, sutil. Será que uma IA pode pensar nisso? Talvez. Pode ser o céu ou o inferno.

E qual o antídoto para combater a preguiça mental, evitar que as pessoas fiquem burras?
 
A primeira coisa é estimular a curiosidade, a criatividade. E isso precisa ser feito de forma divertida. Não é só trabalho. É desafiar o cérebro com coisas que realmente despertem interesse, a chama criativa. Isso é fundamental para não emburrecer.

Como fica o Brasil perto de gigantes da ciência e da tecnologia, como China e Estados Unidos?
 
Ciência é estratégica, claro. Mas é preciso ter liberdade, audácia. Isso é fundamental para gerar conhecimento. Investir em risco. Não colocar só dinheiro nas pesquisas que sabemos serem necessárias, mas investir uma parte, 5% que seja, em ideias “exóticas”. Pode ser que não deem em nada. Mas podem, por vezes, levar a algo fantástico.

O senhor é cotado para o Prêmio Nobel de Física. Qual a sua expectativa?

Quem não quer ganhar um Nobel? Mas não tenho expectativa para este ano. Gosto de pensar no ano que vem.

Por quê?

Porque, pela primeira vez em 60 anos, um Simpósio Nobel será dedicado a um tema da América Latina e fico muito honrado que o tema seja a minha teoria e seus desdobramentos. A América Latina tem prêmios Nobel, mas estou falando dos simpósios que a Fundação dedica a temas que considera mais relevantes.

Como o senhor se mantém tão produtivo aos 82 anos?

Fazendo coisas que me instigam, que me divertem. Faço atividade física, claro, mas acho um tédio. Não deixo de exercitar meu cérebro. Não sei se isso leva a uma vida mais longa, mas, certamente, conduz a uma vida interessante, plena.

Estamos em período eleitoral; o que espera para o Brasil?

‘A IA não é como um aparelho que pode ser desligado', explica o físico brasileiro cotado para NobelEspero mais educação. Isso é fundamental para que as pessoas não sejam manipuláveis da forma abusiva como acontece hoje. É a mesma questão das possibilidades e das probabilidades. Um candidato pode prometer, por exemplo, aumentar salários, dizer até que Deus lhe deu essa missão. Aumentar a renda é uma possibilidade. Mas se ele for mentiroso ou incompetente, ele não fará isso. Ele fala de possibilidade como se fosse probabilidade. Essa manipulação é explorada pesadamente nos discursos políticos. Espero que, com uma melhor educação, os brasileiros não sejam tão manipuláveis como hoje e parem de eleger candidatos que são notórios corruptos ou até acusados de matar, roubar.
 
Por Ana Lucia Azevedo — Rio
 

Últimas da Bahia

Veja Mais +