5 motivos por trás do aumento do bruxismo em crianças e jovens
Aquele barulhinho de dentes rangendo durante a noite, as dores de mandíbula pela manhã, o desgaste que o dentista aponta na consulta: o bruxismo, o ato involuntário e inconsciente de apertar ou ranger os dentes, está cada vez mais presente entre crianças e adolescentes.
E, ao contrário do que se acreditava por muito tempo, ele não tem origem em problemas de mordida ou fatores anatômicos. Hoje, sabe-se que o bruxismo nasce no sistema nervoso e se expressa como comportamento, com fortes raízes emocionais.
Os números impressionam. Uma metanálise de 2024 aponta que a prevalência global do bruxismo do sono em crianças gira em torno de 31% — índice superior ao da população geral. No Brasil, estudos com estudantes do ensino médio indicam prevalências de 20% a 30%, com maior frequência entre meninas e alunos sob alta pressão acadêmica.
"A perda dentária mudou de padrão: o que antes acontecia por má higienização, agora acontece por ansiedade. Estamos recebendo pacientes cada vez mais jovens perdendo dentes por estarem com bruxismo e apertamento exacerbado", alerta o cirurgião-dentista Mario Groisman. Mas, afinal, o que está por trás desse aumento? Reunimos os principais motivos.
1. A ansiedade da vida moderna
Fatores psicossociais como ansiedade e estresse crônico são hoje reconhecidos como as principais causas do bruxismo, especialmente o diurno. E os jovens estão cada vez mais expostos a eles. O pico de prevalência é observado a partir dos 12 anos e, sobretudo, entre 18 e 25 anos — período que coincide com as maiores pressões da vida moderna: instabilidade econômica, cobranças acadêmicas excessivas e a cultura de comparação social.
"A ansiedade decorrente da hiperconectividade e da exposição prolongada às telas constitui um fator de risco relevante que merece atenção de pais, educadores e profissionais de saúde", explica a psicóloga Karen Cristiane Medeiros de Brito. Segundo ela, o sofrimento psíquico frequentemente se expressa também pelo corpo e o bruxismo é uma dessas manifestações.
2. O uso noturno de redes sociais
Este é talvez o fator mais revelador. Um estudo publicado no International Journal of Paediatric Dentistry acompanhou 213 adolescentes espanhóis antes e durante o lockdown. O uso noturno de redes sociais saltou de uma média de 7,9 para 20,7 ocorrências, a ansiedade subiu de 18 para 32,7 e o bruxismo autorrelatado aumentou de 10,4 para 15,4. A conclusão foi direta: o uso de telas à noite funciona como um fator moderador entre a ansiedade e o bruxismo.
Por que o período noturno é tão crítico? "A exposição à luz emitida pelas telas reduz a liberação de melatonina, hormônio responsável pela indução e manutenção do sono, atrasando o início do descanso e comprometendo sua qualidade", explica a psicóloga. Ao mesmo tempo, o conteúdo consumido aumenta o estado de alerta e a ansiedade. Quando o adolescente troca o sono pela tela, o organismo perde capacidade de recuperação, o cortisol aumenta e o sistema nervoso fica mais ativado — cenário perfeito para o bruxismo aparecer ou piorar.
3. A sobrecarga de informação e o FOMO
Não é só o tempo de tela: é o que passa por ela. Fenômenos como o FOMO (do inglês "fear of missing out", o medo de ficar por fora) e a busca constante por validação externa geram uma sobrecarga psicológica crônica, que ativa respostas fisiológicas de tensão muscular e altera a arquitetura do sono.
Além disso, o volume massivo de informações — muitas vezes negativas, alarmistas ou falsas — excede a capacidade de processamento do cérebro jovem, contribuindo para um estado de alerta permanente. "A exposição constante a um fluxo elevado de informações, notificações e conteúdos de forte apelo emocional favorece estados persistentes de hipervigilância", detalha Karen.
4. O sedentarismo e a rotina desregulada
O mesmo estudo espanhol associou o aumento do bruxismo à redução da atividade física. E há uma explicação psicológica para isso. "A prática regular de atividade física exerce um importante papel na modulação da resposta ao estresse, contribuindo para a redução dos níveis de ansiedade, melhora da qualidade do sono e regulação neurofisiológica", afirma a especialista. Quando o movimento diminui e o tempo de tela aumenta, o corpo perde uma de suas principais válvulas naturais de alívio da tensão e o estresse encontra outras formas de se manifestar.
5. O exemplo dos próprios pais
Aqui está um ponto que costuma passar despercebido. As crianças aprendem, em grande parte, por observação e o comportamento digital dos pais influencia diretamente o dos filhos. "Quando os adultos apresentam um padrão de uso excessivo de dispositivos eletrônicos, com dificuldades para estabelecer limites, esse comportamento tende a ser internalizado e reproduzido pelos filhos", explica a psicóloga.
Não se trata de culpar os pais, mas de reconhecer que a mudança começa em casa, de forma compartilhada. Quando os adultos adotam um uso mais equilibrado da tecnologia, tornam-se modelos de autorregulação para as crianças.
Como identificar e o que fazer
Nem sempre é fácil para os pais perceberem o bruxismo, a não ser pelo som característico de ranger os dentes. Entre os sinais de alerta estão dores cervicais, desgaste e hipersensibilidade dentária, fadiga muscular, dificuldade de abrir a boca, zumbido no ouvido e dores de cabeça tensionais. "Mais importante do que tratar a dor é entender a causa raiz do problema", pontua o cirurgião-dentista Eduardo.
Vale um alerta: o bruxismo às vezes funciona como um mecanismo fisiológico de proteção, em episódios de apneia noturna — o cérebro induz o ranger dos dentes para manter as vias aéreas abertas. Por isso, levar a criança regularmente ao dentista é fundamental.
O tratamento, segundo os especialistas, precisa ser multidisciplinar. "Depois do diagnóstico, costumamos recomendar que nossos pacientes procurem também profissionais da área da saúde mental, para que tenham um tratamento eficiente e complementar", explica Mario.
A psicóloga reforça a importância da rotina de sono: interromper o uso de telas de 60 a 90 minutos antes de dormir, manter os dispositivos fora do quarto durante a noite e substituir esse tempo por atividades de menor estimulação, como leitura, jogos de tabuleiro ou conversas em família.
O bruxismo em crianças e adolescentes raramente é "só um hábito" ou "só ansiedade". É a soma de vários fatores — e enfrentá-lo exige olhar para a criança de forma integral, começando por algo tão simples quanto repensar o lugar que as telas ocupam na rotina de toda a família.
Por Tainá Goulart
