Música, podcast, história em quadrinhos: conheça as primeiras entregas do Projeto Viagem Capixaba
Projeto realiza oficinas formativas em quatro linguagens criativas, voltadas para estudantes de escolas públicas de comunidades próximas à Estrada de Ferro Vitória a Minas, no município de Cariacica
Em seu primeiro mês de execução, o Projeto Viagem Capixaba incentivou a criação de diferentes produtos culturais que expressam a memória e a segurança de comunidades próximas à Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), no município de Cariacica. A composição e gravação de uma música inédita, um podcast inspirado nos trilhos da cidade, a realização de ensaios fotográficos coletivos e a criação de histórias em quadrinhos estão entre as primeiras entregas proporcionadas pelo projeto.
O Projeto “Viagem Capixaba” é uma iniciativa da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), viabilizada por meio dos Recursos para Preservação da Memória Ferroviária (RPMF), com realização do Instituto Com.Chá em articulação e parceria com a Vale.
Iniciado no último dia 27 de abril, o projeto compreende a realização de 100 oficinas formativas ao longo do ano de 2026, voltadas para estudantes de escolas públicas localizadas no entorno da ferrovia.
Com duração de quatro anos em ciclos anuais, o projeto convida os participantes a produzir narrativas sobre memória, comunidade, segurança, por meio de quatro linguagens criativas - Podcast, Composição Musical, Fotografia e Roteiro e Criação de Personagens para História em Quadrinhos (HQ). Juntamente com as oficinas formativas, estão previstas 17 viagens culturais de trem no trecho entre Cariacica e Serra, e a produção de um acervo imaterial vivo, contemplando um público de até 10.200 participantes ao longo dos quatro anos.
Composição musical
Na semana passada, os alunos da EMEFTI Arthur da Costa e Silva, do bairro Aparecida, em Cariacica, tiveram a oportunidade de compor e gravar uma música coletivamente, sob a orientação das compositoras Brenda Nayra e Dani Nogueira.
A atividade foi o resultado da primeira oficina de Composição Musical, intitulada “Ritmos da Ferrovia”. Em cinco dias de aulas, com carga horária de 20 horas, os alunos tiveram orientações teórico-práticas sobre propriedades do som, elementos da música e estruturação de composição musical. Também fizeram exercícios práticos de experimentação musical e escrita, e registraram suas memórias sobre a via férrea em cartas, frases e palavras.
Este material serviu de base para a construção da letra da música, conforme destacam as oficineiras Brenda Nayra e Dani Nogueira. “No final do segundo dia, determinamos o tema da música e quem começaria a escrever a letra em casa para trazer no outro dia. No terceiro dia, a música foi composta coletivamente em sala de aula e gravada no quarto dia”, contam as musicistas.
Nascia assim a canção “Quando a Estação Era Mundo”, com letra, melodia e arranjo compostos pelos alunos. “A música tem estilo voltado para a MPB e foi gravada em sala de aula com um computador, interface de áudio e microfone. Porém, os alunos foram incentivados a fazer gravações no celular e apps como BandLab para registrar suas próximas composições”, comentam as oficineiras.
Podcast
Na mesma semana, outra turma que cursa o nono ano na escola aprendeu o passo a passo para a produção de um podcast em uma oficina comandada pela produtora cultural Fabíola Mozine.
As oficinas de Podcast vão gerar episódios com duração de até 15 minutos, que ao final serão disponibilizados gratuitamente em plataforma digital de áudio, divulgada no site do projeto e no perfil oficial no Instagram: @projeto_viagemcapixaba.
Fabíola conta que a formação teve início com a divisão das tarefas em grupos: uma parte dos alunos ficou responsável pela pesquisa, outros pela área técnica e a locução. O tema “Nos Trilhos de Cariacica” foi decidido logo na primeira aula. “Eles queriam levar a experiência deles com a ferrovia para o podcast. Então fizemos um bloco chamado Experiência dos Alunos, em que eles falam sobre a sua visão da via férrea para quem não conhece Cariacica e a tradição ferroviária do Espírito Santo”, explica Fabíola.
Toda a gravação, edição e pesquisa de trilha sonoras e efeitos sonoros foi feita pelos alunos na sala de aula. O material pode ser ouvido no Spotify: https://open.spotify.com/episode/2Yapl6ZHSmgf0SZhwbrFKu?si=fKKebGC0SnmwGO5LXWngkQ
Fotografia
As oficinas de fotografia coordenadas pelos fotógrafos Débora Benaim e Guilherme Carvalho tiveram como entrega uma mostra com 10 fotos produzidas e selecionadas pelos alunos. O material passa a integrar o acervo do projeto Viagem Capixaba, além de compor os materiais gráficos produzidos pelo projeto.
Ao longo da oficina, os participantes produziram 206 imagens sobre os conteúdos trabalhados em sala de aula, de acordo com Débora: “Partimos de temas como território, memória, cotidiano e percepção do espaço onde vivem. Como resultado final, realizamos uma curadoria coletiva das fotografias produzidas pela turma”, comenta a fotógrafa.
Mais do que o olhar técnico, a metodologia compreendeu uma visão da fotografia como forma de observar e registrar o território com mais atenção e presença. “Foi muito especial perceber como os olhares se complementavam: enquanto uma turma trabalhou mais a paisagem e o território, a outra se aproximou mais dos personagens e das relações humanas presentes naquele espaço”, detalha.
História em Quadrinhos
Por sua vez, os participantes da oficina de Roteiro e Criação de Personagens para História em Quadrinhos (HQ), ministrada por Arabson de Assis, foram estimulados a criar histórias curtas, com até três páginas, ou tiras em quadrinhos, produzidas coletivamente pelos estudantes e reunidas em publicações simples, em formatos impressos e digitais. Tanto as páginas de HQs quanto as tiras tiveram como inspiração a memória ferroviária e a segurança, juntamente com as vivências pessoais de cada um dos participantes.
Artista gráfico, escritor, roteirista e ilustrador, Arabson conta que os dias de oficina foram desafiadores e gratificantes. “Foi uma bela experiência ver o interesse de cada um crescendo aos poucos, com o entendimento de que as histórias do cotidiano podem ser transformadas com a linguagem gráfica. A ideia era eles assimilarem que ler vai além das palavras, e que a forma é tão ou mais importante que o conteúdo”, ensina.
Para a coordenadora Carolina Castilholi, o Projeto Viagem Capixaba tem o objetivo de valorizar as histórias e memórias das comunidades ao longo da Ferrovia Vitória a Minas por meio de ferramentas que promovam a reflexão sobre o entrelaçamento da história da ferrovia com a identidade local. “Valorizar essas memórias contribui para fortalecer o sentimento de pertencimento e ampliar o diálogo sobre segurança ferroviária e o cuidado com os espaços compartilhados da cidade, reconhecendo as narrativas locais como parte importante da história dessas comunidades”, afirma.
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