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Ter espírito ou ser tolo?

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Espírito Santo

POR KLEBER GALVÊAS*

“Pensar é um vício. Sentir é uma cachaça”. “Reflexões de um liquidificador”: em filme nacional de André Klotzel.

Voltaire, em seu conto “História de um Brâmane”, fala de um Brâmane (membro da casta mais elevada da Índia), que vivia triste. “Quanto mais luzes havia no seu entendimento e mais sensibilidade no seu coração, mais infeliz era ele.”

De seu palácio observava o comportamento alegre da sua vizinha que era uma velha pobre, devota e imbecil, e o comparava com o seu cotidiano, cheio de preocupações, voltado para a pesquisa e elevadas reflexões. Assim pensava: “Não sei de onde venho nem para onde vou nem no que me transformarei... aqueles que estão contentes consigo mesmos estão bem certos de estar contentes; mas aqueles que raciocinam não têm tanta certeza de raciocinar bem.”

Todos acreditam que o importante é ser feliz, ou que é melhor ser feliz do que ter razão. “Sua vizinha acreditava de todo coração nas metamorfoses de Vixnu (Membro da Trindade Divina Hindu, com a missão de ajudar os humanos incorporando formas de acordo com a situação) e, desde que algumas vezes pudesse conseguir água do Ganges para se lavar, considerava-se a mais feliz das mulheres.”

“O caminho da felicidade parece ser não ter senso comum, desde que este contribua o mínimo que seja, para o nosso mal-estar. Mil vezes eu disse a mim mesmo que seria feliz se fosse tão tolo como a minha vizinha, contudo não desejaria tal felicidade. Não encontrei ninguém que aceitasse se tornar imbecil para se sentir contente.”

Daí o mestre do Iluminismo conclui: “Se damos muito valor à felicidade, damos mais ainda à razão. Contudo, pensando bem, parece uma insensatez preferir a razão à felicidade. Como explicar, então, tal contradição?”

Cem anos antes de Voltaire, em “Sermão de Quarta-feira de Cinzas” (1674) o Padre Antônio Vieira, apontando as agruras da vida, parece ter inspirado Voltaire, quando comenta a ressurreição de Lázaro: Vieira, como todo religioso católico, crê na vida eterna, na proteção dos santos e da água benta. Ele, que viveu 89 anos (morreu em Salvador, Bahia, 1697) e obteve reconhecimento em vida, assim narra a ressurreição de Lázaro:

“Jesus não chorou Lázaro morto. Chora Cristo a Lázaro quando o há de ressuscitar... A todos esteve bem a ressurreição e só ao mesmo Lázaro esteve mal. Esteve bem a Deus (se assim é lícito falar) porque foi para sua glória: esteve bem aos discípulos, porque os confirmou na fé: esteve bem aos de Jerusalém, porque muitos se converteram: esteve bem às irmãs, porque recobraram o amparo e arrimo de sua casa: esteve bem ao mesmo Cristo, porque então manifestou mais claramente os poderes da sua divindade: e só a Lázaro esteve mal, porque a ressurreição o retirou do descanso para o trabalho, do esquecimento para a memória, da quietação para os cuidados, da paz para a guerra, do porto para a tempestade, de sagrado da inveja para a campanha do ódio, da clausura do silêncio para a soltura das línguas, do estado de invisibilidade para o de ver e ser visto, de entre os ossos dos pais e avós, para entre os dentes dos êmulos e inimigos: enfim, da liberdade em que o tinha posto a morte, para o cativeiro e cativeiros da vida.”

Vivemos um período interglacial aqui na Terra. A natureza está exuberante, e o clima ameno concorre, neste período ímpar da história da humanidade, para facilitar a nossa vida. Tomamos consciência desta situação transitória, que experimentamos, através do desenvolvimento científico, que pesquisou, identificou e datou os ciclos glaciais. Durante as glaciações, que duram séculos, a Terra fica quase toda coberta por camadas de gelo com mais de 1 km de espessura, a geografia passa por enormes transformações e 90% da vida no planeta é eliminada. Os pensadores geniais Vieira e Voltaire se soubessem disso, certamente nos teriam oferecido orientações preciosas.

A Filosofia, que sempre esteve à frente da Ciência, parece ter ficado para trás, pois ignora a vantagem do tempo presente apontada pela Ciência. Os antagonistas Zenão (estoicos) e Epicuro (epicuristas) viveram há mais de 2 mil anos, e, de lá para cá, o desenvolvimento científico foi incrível. Entretanto, continuamos organizando nossas vidas, quase sempre inspirados neles, como se o ambiente terrestre fosse imutável, e um céu, formidável e eterno, nos aguardasse. Assim, comportamo-nos como o antigo adágio grego: “Ó morte, vens como médico seguro para nossos males!” Tolos, sem rumo, tateamos na “Era da Incerteza”, nos aproximamos do precipício, promovendo poluição, muros, guerras e por toda parte a violência.

Este texto procurou despertar interesse por nosso tempo. Comparando-o aos períodos glaciais, podemos dizer que vivemos um lapso de Natureza esplendorosa e pródiga: os vulcões gigantes estão dormindo; o Sol está sossegado; a mecânica celeste tem errado o alvo; os mares têm moderado a absorção do sal e suas correntes funcionam bem; a Terra continua girando e correndo ao redor do sol, criando as estações; e nós, procriando com desenvoltura. A Filosofia precisa valorizar essa feliz conjuntura, induzindo otimismo, gerando paz e progresso.

A Ciência nos proporciona a multiplicação dos peixes, dos pães e da nossa força, sem vertermos suor. O que oportuniza criar uma nova filosofia de vida, recobrando para o caráter Afetivo o peso na equação civilizatória:

HC = C + A + Pm onde HC - homem civilizado; C - cognitivo; A - afetivo; Pm - psicomotor.

Nunca foi tão fácil viver na Terra, dadas as condições naturais que ela nos oferece no presente, e o desenvolvimento científico que alcançamos. Por que criamos tantas dificuldades para sermos felizes, aqui e agora?

“... A crença é como o luar que nas trevas flutua: A razão é do céu esplêndido farol: Para a noite da morte é que Deus nos deu a Lua... Para o dia da vida é que Deus fez o Sol...“ Guerra Junqueiro (1850 – 1923). “Aos Simples” em “A Velhice do Padre Eterno”, 1885.

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Kleber Galvêas é pintor e escritor. Tel. (27) 3244 7115. ateliegalveas@gmail.com www.galveas.com janeiro, 2018.
ILUSTRAÇÃO: "Apocalipse". Galvêas,2018

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