Excesso de telas reduz tempo de brincar e convívio social, alerta especialista

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Quarta, 20 de outubro de 2021, 16:15:21

Excesso de telas reduz tempo de brincar e convívio social, alerta especialista

Bahia, Tecnologia - Alerta

Uso excessivo de dispositivos digitais ocupa espaço essencial do desenvolvimento infantil; estudo científico associa o 'faz de conta' a ganho de habilidades cognitivas.

 

Celular, tablet, videogame e outros dispositivos digitais já fazem parte da rotina das crianças, mas o tempo excessivo diante das telas pode ocupar um espaço que também pertence ao brincar, ao movimento, à conversa, à criação e ao convívio com outras pessoas. Neste Mês das Crianças, vale observar o que resta do tempo livre quando as telas ganham cada vez mais centralidade na rotina. Para a psicóloga Amanda Cunha, a questão não é transformar a tecnologia em vilã, já que existem conteúdos digitais de qualidade e situações em que ela pode fazer parte da aprendizagem, mas perceber quando passa a deixar menos espaço para outras experiências importantes da infância.

“Quando uma criança brinca, ela não está simplesmente passando o tempo. Ela está experimentando possibilidades. Quando monta uma torre, inventa uma história, brinca de casinha ou cria uma regra para um jogo, precisa tomar decisões, lidar com frustrações, esperar, negociar e encontrar soluções”, explica Amanda. Segundo a especialista, essas interações transformam a atividade lúdica em uma ferramenta ativa de amadurecimento e socialização.

Para a psicóloga, o brincar de faz de conta, por exemplo, ocupa um lugar central nessa experiência porque permite que a criança desenvolva histórias, personagens e regras próprias, sem necessariamente seguir um roteiro definido por um adulto. “Essa liberdade favorece situações em que a criança pode explorar a criatividade e estabelecer uma relação própria com os objetos e com o ambiente, enquanto aprende a organizar ideias, fazer escolhas e lidar com diferentes possibilidades”, afirma.

A relação entre o brincar de faz de conta e essas habilidades também vem sendo investigada pela ciência. Uma meta-análise publicada em 2026 na revista Cognitive Development, que reuniu 42 estudos com 5.009 crianças, encontrou associação positiva entre o faz de conta e as funções executivas, conjunto de habilidades que inclui controle da atenção, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. Os autores, Feiyan Li e Hui Zhang, ressaltam, porém, que a maior parte das evidências é correlacional e que ainda são necessários estudos longitudinais e experimentais.

Sobre a função do brincar, Amanda observa que ele não precisa ter uma finalidade pedagógica previamente definida pelos adultos. “Nem todo brinquedo precisa ensinar uma cor, uma letra ou um número”, afirma. A psicóloga também recorre aos conceitos do psicanalista Donald Winnicott, na obra O Brincar e a Realidade, para explicar a importância de um espaço em que a criança possa criar a própria brincadeira, e não apenas receber experiências prontas. “Uma caixa pode virar uma casa. Um lençol pode virar uma cabana. Um boneco pode ganhar uma história inteira”, exemplifica Amanda.

Excesso de telas reduz tempo de brincar e convívio social, alerta especialistaEsse espaço para o brincar também aparece nas orientações oficiais. O Guia Crianças, Adolescentes e Telas, do Governo Federal, recomenda que o uso de dispositivos digitais seja supervisionado e não substitua atividades fundamentais para o desenvolvimento. Para crianças menores de dois anos, a orientação é evitar telas, com exceções como videochamadas, priorizando brincadeiras, interações Boneca presenciais, movimento, música e livros.

De acordo com Amanda, observar apenas o tempo de tela não é suficiente. A rotina da criança também precisa incluir brincadeiras sozinha e com outras crianças, movimento, conversa, imaginação, criação e situações em que possa tentar novamente e descobrir o que fazer sem receber uma resposta pronta. Por isso, a pergunta para os pais neste Mês das Crianças pode ir além de “quanto tempo meu filho fica na tela?” e considerar também “que experiências estão tendo espaço na vida dele?”.

Na avaliação da psicóloga, mais do que escolher entre “tela” ou “brinquedo”, o desafio é construir uma infância em que a tecnologia tenha seu lugar, mas não ocupe todos os lugares. “Brincar não é apenas uma maneira de preencher o tempo da criança. É uma experiência por meio da qual ela pode criar, experimentar, se relacionar e descobrir diferentes formas de estar no mundo”, afirma.

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