Desde que substituiu a composição do remédio anos atrás, ela não teve mais nenhum sintoma alérgico. Atualmente, optou por não usar nenhum tipo de hormônio. "O anticoncepcional era como um gatilho para as crises", destaca.
Depois de muita investigação, ela descobriu que o trauma gerado pela agulha durante o preenchimento labial foi o motivo pelo inchaço e crise após o procedimento na clínica de estética. "Não foi o ácido hialurônico, mas sim a agulha", diz.
Importância do diagnóstico correto
Ao publicar seu relato nas redes sociais, Pamela recebeu diversos comentários de outras pessoas que, provavelmente, sofrem com o problema, mas até hoje não sabem que têm a doença. Somente em uma única postagem, o vídeo tem pouco mais de quatro milhões de visualizações e 534 mil curtidas.
Segundo a jovem, o conteúdo foi feito como alerta para que outras pessoas também possam receber um diagnóstico precoce e seguir com o tratamento correto. "Se eu tivesse sido tratada corretamente não teria tomado tantos corticoides, adrenalina e poderia ter descoberto que era o anticoncepcional que causava o problema e evitado muitas crises", ressalta.
Além da face, ela também sofria com inchaço no intestino e acreditava que o incômodo era algo gastrointestinal ou outro problema. "Eu faltava muito no trabalho, pensava que era gastrite e tomava remédio. Mesmo assim, os sintomas só melhoravam depois de três ou quatro dias", conta.
"São sintomas que você vai no pronto-atendimento e os médicos tratam como alergia e gastrite, dão medicação, mas esse remédio não faz efeito nenhum e resulta em um sofrimento muito grande".
Hoje, ela já está há algum tempo sem nenhuma crise e celebra, mesmo que tarde, a descoberta da doença. "Tenho uma vida totalmente normal e não tive mais nenhum inchaço."
O que é o angioedema hereditário?
É uma doença genética rara, que acomete 1 em cada 50 mil pessoas e que os principais sintomas são ataques de inchaços deformantes.
"Acomete principalmente o rosto, mas também pode atingir as extremidades como mãos e pés, deixando-os bem assimétricos. Pode ainda atacar a genital e pegar a via respiratória como língua, laringe e provocar um edema de glote. Também pode ter edemas nas alças intestinais, provocando dores abdominais", explica Marcelo Aun, professor de Imunologia da Graduação em Medicina da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
O tipo mais comum é o chamado angioedema com deficiência no inibidor de C1 esterase. Esta é uma proteína responsável por controlar a ativação de outras proteínas da nossa imunidade que são conhecidas por "sistema complemento".
Assim como ocorreu com Pamela, traumas locais podem desencadear e aumentar as crises alérgicas. "Os traumas são fatores importantes no desencadeamento e geralmente as crises iniciam algum tempo depois no local traumatizado, ainda que seja de baixa intensidade", destaca Alex Isidoro Ferreira Prado, imunologista da USP (Universidade de São Paulo ) e especialista da equipe técnica da Clínica Croce.
Os anticoncepcionais com estrogênio também podem aumentar as crises alérgicas, piorando os inchaços. "No caso do angioedema hereditário, o estrógeno pode desencadear as crises e está presente em anticoncepcionais combinados, reposição hormonal e durante o ciclo menstrual", diz Anete Grumach, membro do Departamento Científico de Imunodeficiências da ASBAI (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia).
Segundo a especialista, o estrógeno atua nos sistemas controlados pelo inibidor de C1, resultando em aumento de bradicinina, que é a responsável direta pelas crises do angioedema. Geralmente, quando mulheres querem continuar com métodos contraceptivos, o recomendado é usar somente os à base de progesterona.
É importante um diagnóstico precoce, já que as crises alérgicas podem atrapalhar a qualidade de vida do paciente. Contudo, os médicos destacam que, em muitos casos, pode levar anos, já que a própria classe médica em alguns casos trata como alergia a alimentos ou medicações.
Embora seja difícil o diagnóstico, a linha terapêutica é mais acessível aos pacientes e o tratamento deve ser feito por um médico imunologista.
A pessoa pode receber medicações nas crises e remédios que vão impedir novas profilaxias. Alguns indivíduos também podem adquirir medicamentos profiláticos antes de procedimentos cirúrgicos em locais de risco como a face.
Existem tratamentos mais antigos e que podem ser fornecidos pelo SUS, como os andrógenos atenuados e medicamentos como o ácido tranexâmico. "Temos medicamento para prevenção de crise, que é um comprimido à base de hormônio masculino, mas às vezes falta no SUS", reforça Aun.
Algumas medicações novas agem diretamente na doença, bloqueando, por exemplo, a bradicinina, substância importante nas crises. Outros tratamentos fornecem ao paciente a proteína que ele não produz, chamada inibidor de C1. Há ainda medicações injetáveis, mas que são de alto custo e não estão disponíveis no SUS (Sistema Único de Saúde).
Os especialistas destacam que cada tratamento deve ser avaliado individualmente e que a pessoa nunca deve se medicar sozinha. "Quando não tratada adequadamente, a doença pode levar a óbito em até 40% dos casos pelo angioedema de laringe, gerando asfixia", diz o especialista da USP.
"Pacientes devem sempre se atentar para gatilhos, evitar as crises e utilizar profilaxias. Cada orientação deve ser individual, mas no geral deve-se evitar traumas, esportes de alto impacto, cuidado com procedimentos odontológicos e estéticos", conclui o especialista.
PORTAL SBN
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